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domingo, 6 de junho de 2010

FOCALIZANDO O TRABALHADOR ESPÍRITA WILSON GARCIA


WILSON GARCIA




ENTREVISTA PARA ISMAEL GOBBO AO NOTICIAS DO MOVIMENTO ESPÍRITA


O entrevistado Wilson Garcia é jornalista, escritor e orador espírita de muito prestigio junto ao movimento espírita brasileiro e de outros países. Mineiro de São João Nepomuceno, residiu em São Paulo e hoje mora em Recife, Pernambuco. Quando em São Paulo prestou relevantes serviços
à USE- União das Sociedades Espírita do Estado de São Paulo em diversos momentos e foi um dos fundadores da ADE/SP- Associação de Divulgadores do Espiritismo do Estado de São Paulo. Hoje prossegue como divulgador de primeira linha em terras pernambucanas.



Wilson, apresente-se ao nosso leitor, por favor

Sou de São João Nepomuceno, uma localidade que tem por slogan “cidade garbosa de Minas Gerais”, onde nasci em 1949 e onde vivi até os meus vinte anos de idade, filho de pai paulista e mãe gaúcha, com uma particularidade: os dois se perderam de suas famílias e nunca mais encontraram qualquer parente, de modo que posso dizer que minha família é desenraizada e teve início a partir de meus pais. O desenraizamento prossegue até hoje: sou casado, tenho quatro filhos e cada um deles vive e reside em locais distantes entre si. Vivi dos vinte aos cinqüenta e cinco anos em São Paulo, capital, e nos últimos seis resido em Recife, Pernambuco. Tenho ainda dois netos.



Como ocorreu seu contato com o Espiritismo?

Havia uma velhinha em minha cidade natal que me falou pela primeira vez do espiritismo. E, confesso, não falou bem. Mostrou-me o centro espírita e disse que ali aconteciam coisas misteriosas.

Alguns anos depois, já jovem, participei por convite de um amigo de algumas reuniões umbandistas realizadas em um sítio na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. O sítio ficava no alto de uma montanha, de onde se tinha uma bela visão da cidade. Ali conheci pela primeira vez a mediunidade e participei de fenômenos interessantíssimos.

Mais à frente, conheci o pai de uma colega de estudos que me encantou pela serenidade, a fala tranqüila. Participei uma única vez de uma reunião de vibrações em sua casa e fiquei curioso. Quando lhe disse que estava de mudança para São Paulo, deu-me ele um endereço dizendo que lá eu encontraria respostas para muitas das minhas dúvidas.

Por algumas vezes, passei de ônibus em frente ao local, mas nunca parei. Chamava-se Racionalismo Cristão.

Certa noite de sexta-feira, retornando para casa, passei em uma livraria onde habitualmente freqüentava, disposto a comprar alguns livros em promoção. Dei de frente com O Livro dos Espíritos, edição encadernada da Lake, tradução de Herculano Pires. Comprei-o, contente, e passei a lê-lo com grande disposição.

Fazia eu um curso de aperfeiçoamento profissional na capital paulista, juntamente com sete outros profissionais, quando verifiquei que um deles estava também lendo o mesmo livro. Indicou-me ele a Federação Espírita do Estado de São Paulo. Na mesma semana fui até a sede da Rua Maria Paula e lá me inscrevi no curso de médiuns. O resultado disso é que participei por muitos anos daquela instituição, ali desenvolvendo inúmeras atividades colaborativas.



Poderia nos descrever sua trajetória pelo movimento espírita?

Logo que ingressei na Federação, inscrevi-me como colaborador do seu Departamento Federativo, à época dirigido pelo professor Aluysio Palhares. Estávamos em 1971. Esta colaboração durou até mais ou menos 1978. Ao mesmo tempo, assumi compromissos com outros setores da Federação, como Área do Livro, jornal O Semeador, Área de Ensino, chegando ao Conselho Deliberativo como membro eleito.

No Departamento Federativo pude conhecer algumas centenas de centros espíritas, a maioria deles localizados na capital e desta experiência surgiu meu primeiro livro espírita: O Centro Espírita (fundação, organização e direção), lançado em 1978 pela Editora Nova Era e posteriormente relançado pela USE.

Por duas vezes, assumi a direção do jornal O semeador e de 1976 a 1978 participei do projeto de dinamização das livrarias da Federação, na condição de gerente.

Em 1976, passei a colaborar com o jornal Correio Fraterno do ABC, onde já escrevia algumas crônicas. Tornei-me responsável pela sua redação juntamente com o seu fundador, Raymundo Rodrigues Espelho, Wilson Francisco e Cirso Santiago. Assumi, mais tarde, a responsabilidade editorial da Editora Correio Fraterno, que foi dinamizada e tornou-se um projeto vitorioso destinado ao lançamento e comercialização de livros com vistas a dar suporte financeiro ao jornal, então deficitário.

Durante catorze anos permaneci na Editora e nesse tempo lançamos cerca de quarenta títulos, a maioria deles muito bem recebidos e posicionados no mercado editorial espírita.

Pela Editora Correio Fraterno do ABC, lancei em 1981 o meu segundo livro: O Corpo Fluídico, posteriormente o opúsculo Médicos Médiuns, além das traduções de O Fantasma de Canterville e O Destino de Lorde Arthur Saville (ambos de Oscar Wilde), bem como de Herculano Pires, Filósofo e Poeta, escrito pelo argentino Humberto Mariotti.

Na USE, assumi o projeto de construção do departamento editorial no primeiro mandato de Nestor Masotti e, mais tarde, um novo projeto: o de transformação do antigo jornal Unificação, que foi substituído pelo Dirigente Espírita, no primeiro mandato do presidente Antonio Cesar Perri de Carvalho. Na mesma época, pelo selo USE, lancei meus livros O Centro Espírita e suas Histórias e Kardec é Razão, além de organizar a edição do livro Centros e Dirigentes Espíritas, com artigos de vários autores publicados no jornal Dirigente Espírita.

Por convite do editor Arnaldo Camargo, de Capivari, criei em 1982 o jornal OpiniãoE, que a editora EME publicou durante cerca de quatro anos.

Juntamente com o companheiro Eduardo Carvalho Monteiro, hoje falecido, fundamos em 1991 o Lar Anália Franco e a Editora Eldorado Espírita na divisa da capital paulista com o município de Diadema. Foi também com Eduardo que publiquei o livro Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo, lançado em 1986 no IX Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas que presidi na capital paulista.

Em 1989, com Jorge Rizzini e outros companheiros participei da fundação da Associação de Jornalistas Espíritas do Estado de São Paulo, tornando-me seu primeiro presidente. Mais tarde, a associação teve sua denominação mudada para Associação de Divulgadores do Espiritismo do Estado de São Paulo, ADE-SP que posteriormente criou o programa radiofônico Ação 2000, ainda hoje no ar.



A que casa espírita e órgãos está vinculado atualmente?

Participo da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Pernambuco, ADE-PE, na cidade de Recife, onde resido desde fins de 2004. Pela ADE-PE criamos há pouco mais de três anos o programa radiofônico Realidade Paralela, levado ao ar todos os sábados, das 17h30 às 19h00, ao vivo, pela Rádio Folha FM 96.7, com grande aceitação entre os espíritas e a sociedade pernambucana.

Sou ainda membro do Conselho Curador da Fundação Dona Virgínia e J. Herculano Pires, localizada na capital paulista.

Profissionalmente, embora aposentado como jornalista, mas trabalho como professor da Faculdade Maurício de Nassau e das Faculdades Unidas de Pernambuco (Faupe), ambas na cidade do Recife.



Como esta enxergando este movimento presentemente?

O espiritismo como um todo, aí compreendendo o movimento institucionalizado e a sua inserção social, passa por transformações cada vez mais perceptíveis. De um lado, assumiu definitivamente o seu aspecto consolador consubstanciado na sua faceta religiosa e, de outro lado, alcança níveis de penetração social jamais vistos.

O movimento institucional tornou-se irreversível, dotando o espiritismo de um tipo peculiar de estrutura burocrática e de um nível hierárquico também peculiar. Há uma consciência em certa medida respeitada de que a autoridade transita entre os limites sempre tênues do questionamento e da aprovação, o que impede que os que ocupam cargos de direção ou são solicitados pelos meios de comunicação ultrapassem o próprio poder. Não se sabe, porém, até que ponto isto se manterá.

No que diz respeito ao espiritismo social mantém-se uma forma de divulgação anárquica de raiz, ou seja, qualquer indivíduo ou organização sente-se confortável para divulgar e comunicar a doutrina, enquanto que as organizações federativas cuidam dos eventos macros, como é exemplo o último congresso patrocinado pela Feb realizado em Brasília neste ano.

Esta anarquia comunicativa produz efeitos diversos, dentro e fora do movimento institucionalizado, como, por exemplo, a capacidade de dar vez e voz às variadas tendências do pensar espírita e, de outro lado, permitir que os princípios doutrinários se multipliquem muito mais na sociedade do que o crescimento do número de adeptos.

Nunca se estará imune a mudanças indesejadas. É natural que aqueles que possuem algum tipo de poder pretendam estender mais e mais a forma de dominação, o que sempre desemboca no estreitamento da liberdade.



Alguns acham que os postulados espíritas estariam a merecer reparos em face dos avanços da ciência. Kardec continua atual? Há que se falar em readequação?

Os princípios básicos são, inegavelmente, atuais. Deus, imortalidade, reencarnação, comunicabilidade entre os dois planos, evolução, etc. são princípios que não estão em questionamento enquanto pilares do edifício doutrinário. Evidentemente que qualquer um pode discuti-los, mas o espiritismo como foi apresentado por Kardec não fará sentido sem eles.

Por outro lado, a própria noção de progresso apresentada por Kardec implica no pensar e repensar doutrinário constante. Não se pode ter receio de pensar, pesquisar e analisar, como não se pode opor obstáculos à discussão das idéias. Pelo contrário, a boa inteligência está em criar espaços públicos de debate do conhecimento como meio e forma de fazer avançar o espiritismo.

Este é um dos graves problemas do movimento espírita institucionalizado, que se torna repetitivo exatamente por não contemplar a produção de novos conhecimentos. Daí ser cada vez maior a importância da anarquia comunicativa, porque a ela incumbe preencher esse importante espaço do progresso espírita. O medo do erro colima na paralisia cognitiva.

Princípios doutrinários à parte – eles precisam ser o fio de ligação entre as diversas tendências ideológicas do pensar espírita – tudo o mais pode ser objeto de estudo, reflexão, pesquisa.

Há, de outra parte, a questão do respeito à obra de Kardec, em termos éticos e morais, como de resto se deve respeitar os direitos de qualquer autor. Quando se discute a necessidade de pensar o espiritismo em relação ao avanço do conhecimento não se pode sequer imaginar qualquer tipo de interferência ou alteração do texto kardequiano. O Livro dos Espíritos e as demais obras não podem ser alteradas, modificadas nem sofrer qualquer tipo de interferência sob pena de crime autoral.

Em nenhum setor da sociedade, em que o conhecimento é objeto de interesse, o saber se faz em cima da anulação das conquistas obtidas. As obras fundantes permanecem preservadas.



Quais as obras de sua autoria, espíritas e não espíritas?

Eis a relação:



Ao Cair da Tarde – Momentos de Paz

Barroso, 90 Anos (Pequenas Crônicas para uma Grande História)

Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo (com Eduardo C. Monteiro)

Chico, Você é Kardec?

Entre o Espírito e o Mundo

Espiritismo Cultural – Arte, Literatura, Teatro

Estratégia, Linguagem e Informação

Imprensa na Berlinda (com Norma Alcântara e Manuel Chaparro)

Kardec é Razão

Médicos Médiuns (opúsculo)

Mensagens de Saúde Espiritual (Antologia popular)

Muito Além das Sombras - Memórias e Amizades

Nosso Centro - Casa de Serviços e Cultura Espírita

O Centro Espírita

O Centro Espírita e suas Histórias

O Corpo Fluídico

O Destino de Lorde Arthur Saville (Oscar Wilde – tradução e interpretação)

O Fantasma de Canterville (Oscar Wilde – tradução e interpretação)

Sinal de Vida na Imprensa Espírita (com Eduardo C. Monteiro)

Uma Janela para Kardec

Vidas – Memórias e Amizades

Vinicius - Educador de Almas (com Eduardo C. Monteiro)

Você e a Obsessão

Você e a Reforma Íntima

Você e o Passe (com Wilson Francisco)

Você e os Espíritos



Traduções



Cérebro e Pensamento, e outras monografias (Ernesto Bozzano)

Herculano Pires, Filósofo e Poeta (Humberto Mariotti/Clóvis Ramos)

Victor Hugo Espírita (Humberto Mariotti)



Este ano comemorarmos o centenário de nascimento de Chico Xavier. O que tem a dizer sobre o grande vulto e a importância de sua obra no contexto da Doutrina Espírita?

Inegavelmente, Chico Xavier adquiriu importância fundamental no desenvolvimento do espiritismo. Em tempos de hiperdimensionamento do consumo é natural que a vida e os atos do médium despertem mais interesse na mídia que o conhecimento de sua obra psicográfica. A intimidade está devassada e oferecida para deleite numa sociedade que procura ampliar ao máximo os minutos de fama das personalidades produzidas em linhas de montagem de pouca qualidade.

É no entanto a obra psicográfica que ampliou a compreensão do conteúdo doutrinário, tornando possível um olhar mais amplo para a realidade da vida. Chico tornou Kardec mais crível, racional e menos sobrenatural ao disponibilizar ao ser humano o pensamento e as informações de uma centena de espíritos respeitáveis. Sua obra terá vida longa, sem dúvida, e será responsável pela própria ampliação da longevidade da vida da obra kardequiana.



Seu livro “Chico, você é Kardec?”, lançado em 1999, contraria a tese da reencarnação de Kardec como Chico Xavier, tese esta defendida por nomes conhecidos do público. O que você tem a dizer sobre isso?

A tese de que Chico Xavier seria Allan Kardec reencarnado foi colocada de forma irresponsável por algumas pessoas de reconhecida competência doutrinária. Quando digo irresponsável estou me referindo à forma e aos argumentos apresentados por estas pessoas.

É preciso esclarecer que o debate em torno da reencarnação como princípio doutrinário é sempre oportuno, postule-se ou não que este ou aquele indivíduo tenha sido determinada personalidade no passado. A literatura espírita está repleta dessas postulações e isso jamais foi considerado comprometedor para a credibilidade do espiritismo.



O que ocorreu no caso de Chico Xavier foi uma precipitação inaceitável por tudo aquilo que envolve o médium e as pessoas que assumiram a difusão desta postulação. Em lugar de colocar o assunto para análise ou subsidiado por evidências e provas, jogou-se na sociedade a conclusão de que Chico era Kardec de volta, tendo-se por sustentação apenas a opinião dos postulantes.

O tema sempre foi controverso e meu livro demonstrou isso. Análises criteriosas apresentaram argumentos sustentados por um lógica inegável, contrária. Os melhores biógrafos de Chico, que tocaram no assunto, foram honestos em apresentar os argumentos favoráveis e os contrários. O próprio Chico se colocou contra, considerando as diferenças de personalidade entre ele e Kardec, mas os postulantes se valeram de sua credibilidade pessoal para sustentar a tese, que para eles saiu da condição de tese para se tornar algo “irretorquível”.

A reação, na ocasião em que o tema foi recolocado nestas novas bases, foi quase avassaladora por parte da intelectualidade espírita, mas, apesar disso, não logrou encontrar eco naqueles que em lugar da postulação deveriam reconhecer que o assunto pedia mais estudo e menos emoção.

Logicamente, o grande público ficou refém da questão e tendente a aceitar a afirmação de que Chico era Kardec, porque aparentemente isto o tornaria ainda maior diante da grandiosidade de sua obra.

Até prova em contrário, porém, à luz dos fatos Chico foi Chico e Kardec, Kardec.

Sei que as longas respostas são cansativas, mas me permito aqui reproduzir uma respostas que dei à amiga Hilda Nami. Ei-la:


Caríssima Hilda. A questão não mais está submetida à razão, mas à emoção. Quando escrevi o livro "Chico, Você é Kardec?" tive a percepção de que estava laborando num terreno difícil exatamente pela predominância da emoção. E essa percepção não nasceu apenas por conta da imensa figura que fora o médium Chico Xavier, nem mesmo da inumerável quantidade de admiradores que amealhou em sua longa existência terrena. A verdade é que a mitificação do médium conduz a multidão de seus admiradores a colocá-lo no ponto mais alto do olimpo, na expectativa de que ele, lá, brilhe de modo perene. Convenhamos, a perspectiva de que ele seja Kardec o coloca em definitivo naquele lugar mais elevado.

Maturana, pesquisador chileno, desenvolveu uma tese interessante em que defende o fato de que o homem é emocional e não racional. A razão serve muito mais para explicar a emoção do que para qualificação do ser humano. Agimos e reagimos em função desse conteúdo emocional predominante e somente depois nos damos conta de refletir sobre o comportamento e as decisões que adotamos.
Em vista disso, estabelecem-se duas possibilidades, tomando-se o caso Chico-Kardec por referência: aqueles que aceitam a tese de uma única entidade espiritual para os dois atores sociais sempre encontram razões para reforço da tese, referendando a afirmação de que só se vê o que se deseja; por outro lado, aqueles que não encontram sustentação nessa tese mais e mais se vêem fortalecidos nas razões que contrariam os argumentos favoráveis ao Chico-Kardec.

Há apenas uma maneira de lidar com a questão de modo objetivo: pelo emprego da racionalidade. Ocorre que o conteúdo emocional sempre desconfia da razão, de modo a colocar na defensiva aqueles que se postam no lado contrário dos negadores da personalidade única para Chico e Kardec. Ainda assim, haverá sempre a possibilidade de um encontro de interesses para solução da questão, mas esse encontro só pode acontecer tendo-se por parâmetro a racionalidade, ou seja, o enfrentamento da questão precisa ocorrer sob uma perspectiva científica, metodologicamente estruturada.
Os principais argumentos de sustentação da tese Chico-Kardec encontram-se reunidos no livro, ao lado dos argumentos contrários. Pode-se notar com clareza que os defensores da tese apóiam-se em elementos que não se sustentam racionalmente. Há uma predominância total do conteúdo emocional. É por isso que estes preferem o silêncio ou a manifestação isolada ao diálogo crítico.

Os argumentos pró Chico-Kardec são: coincidência de datas, importância da obra de Chico Xavier, supostas confirmações via mediunidade, fatos originários de conversas íntimas e algumas afirmações do tipo “sei porque sei”. Os argumentos contrários estribam-se na falta de provas convincentes, nas diferenças de personalidade entre os dois atores e numa crítica à sustentação dos defensores que tem por base argumentos contraditórios.
A defesa emocional da tese coloca os seus defensores em uma posição arredia à postura racional, mas em matéria tão complexa não há como encontrar solução se não for pela racionalidade, marca do trabalho de Kardec. O ponto de partida de qualquer estudo aí terá que ser a dúvida: será Chico a reencarnação de Kardec? Veja bem, a adoção desta dúvida implica já em dizer que Chico só poderá ser considerado a reencarnação de Kardec se forem obtidas provas ou evidências insuspeitáveis, portanto, já se parte da idéia de que enquanto não houver provas (que é o que corre, de fato, atualmente) Chico não pode ser tomado por Kardec.

Os defensores da tese terão muita dificuldade em se colocar neste ponto, porque já tomam como verdade aquilo que possuem em matéria de informação, seja o que resulta das experiências pessoais, seja o que advém das informações mediúnicas, apesar da fraqueza dessas evidências e do amplo predomínio dos fatores emocionais aí encontrados. Mas todo e qualquer interessado no esclarecimento do assunto será levado a compreender que é preciso tomar a questão com tranqüilidade e estudá-lo com isenção e objetividade, para então poder alcançar um dia a verdade.
Por tudo isso é que se precisa colocar a dúvida como ponto de partida, adotando-se a criteriosa postura do estudioso consciente de que nenhuma prova ainda foi colhida para que se pudesse dizer que Chico e Kardec foram a mesma personalidade.



Como surgiu o livro “Muito Além das Sombras” que você está disponibilizando aos internautas? Esse livro nos dá a certeza de que você preza muito a amizade com os companheiros espíritas encarnados e desencarnados. Alem de Rizzini nos vem à memória a figura inesquecível de Eduardo Carvalho Monteiro com o qual você escreveu sobre a vida e a obra de Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo. Como explica essa vertente de historiador?

O livro “Muito Além das Sombras” vem na esteira de outro, denominado “Vidas, Memórias e Amizades”, lançado em 2009 pela Editora EME, de Capivari, onde reúno e comento minhas relações com 11 espíritas conhecidos, entre eles o próprio Rizzini, Deolindo Amorim e Eduardo Carvalho Monteiro.

“Muito Além das Sombras” é exclusivamente sobre os mais de trinta anos que tive de convivência com Rizzini e sua família, podendo acompanhar de perto, não poucas vezes porta a dentro de sua casa, seu trabalho e suas lutas. Dividi com ele angústias e alegrias, tensões e expectativas, além de muitos momentos importantes do espiritismo brasileiro. O livro busca dar uma visão desta relação.




Diferentemente do livro “Vidas”, que foi impresso e é vendido normalmente pelas livrarias, resolvi que o livro “Muito Além das Sombras” deveria seguir aquilo que acredito seja o caminho irreversível, o próprio futuro, a virtualidade, onde o conhecimento é disponibilizado sem ônus financeiro e o acesso a ele é livre.

O livro nasce do turbilhão de lembranças que me surgem no momento em que recebo a informação da desencarnação do amigo Rizzini, e a recebo pela internet. O texto inicial tinha apenas uma verdade: o falecimento. As poucas coisas complementares que trazia eram resultado de equívocos.

Quando o Eduardo Monteiro faleceu e a informação também me chegou em Recife pela internet, minha reação foi imediata, como a do Rizzini, mas diferente. Eu havia estado com ele pouco tempo antes, no Hospital em que estava internado na capital paulista, quando tivemos uma conversa e ele, Eduardo, estava extremamente fragilizado mas esperançoso de retomar a vida, o que acabou não acontecendo. Então produzi o texto que foi publicado e, posteriormente, incluído no livro “Vidas”.

Foi diferente com a notícia do falecimento do Rizzini porque a memória, neste caso, abriu os arquivos como numa avalanche, tornando-me incapacitado a detê-la e com ela convivendo dia e noite, um verdadeiro turbilhão de fatos, momentos, vivências.

Ao longo da escritura amadureci a idéia de publicá-lo virtualmente, aproveitando as novas tecnologias ou aquilo que se convencionou denominar ebook. Sei que a cultura da leitura do livro impresso dificulta e muito o uso da nova tecnologia e tenho recebido algumas reclamações de amigos, apontando suas dificuldades de leitura. O ebook, porém, além de permitir que o livro seja impresso pelo próprio interessado, pode ser também gravado no próprio computador pessoal do leitor, que dele pode fazer a cópia e ter disponível no momento que desejar. E mais, oferece grandes facilidades para pesquisar qualquer coisa no texto, sem necessidade de folhear, bastando acionar uma simples tecla.

Quanto à minha relação com a história, considero uma questão de fundamental necessidade para a compreensão da vida. Sempre estive convencido de que conhecer a raiz das coisas permite, como nada, entender os acontecimentos atuais, os indivíduos e a sociedade. Por isso, a maioria dos meus livros sempre apresenta uma vertente histórica.

Aproveito para deixar aqui o endereço eletrônico onde o livro “Muito Além das Sombras” poderá ser acessado. São dois. Ei-los:



http://www.readoz.com/publication?i=1026116


http://www.scribd.com/doc/31670469/Muito-alem-das-sombras


Como vê a Internet na divulgação do Espiritismo pelos mais variados meios que ela oferece?

A internet é um espaço extraordinário, uma conquista indiscutível e um caminho sem volta. Ela altera a nossa relação com a realidade, com o mundo das coisas, bem como coloca em xeque o próprio conceito de realidade. Já não mais sabemos o que é e o que não é real, já que o virtual tem agora existência sem que possa o precise ser tocado, pesado, medido. O mundo do imaginário, onde os sonhos habitam e sempre se fizeram imagens, rompe agora com o velho conceito e é reconhecido com um novo espaço onde o real também está presente. Ou seja, o concreto evapora e reaparece onde somente o abstrato podia ser reconhecido.

Este é também o mundo da internet ou da virtualidade. Naturalmente, aqueles que possuem cinqüenta anos ou mais sofrem com estas mudanças tão drásticas, têm enormes dificuldades de adequação, o que mostra que não se trata apenas de introdução de uma nova tecnologia, mas que esta tecnologia tem implicações culturais e éticas e provoca repercussões na estrutura psicológica dos indivíduos.

Uma das mais profundas repercussões está localizada na capacidade da internet de ampliar a liberdade a um nível jamais visto. Quando a imprensa assumiu a invenção de Gutemberg, os homens tiveram como controlá-la, retardando ao máximo a sua influência. A internet é o novo desafio da liberdade, onde os controles são também colocados em xeque.

O espiritismo tem muito a ganhar com a internet, já pela diversidade de pensares, já pela possibilidade de manifestação do pensamento. O espaço institucional é limitante, fácil de controlar, mas o espaço virtual não. Nem se imagine que estamos postulando uma anarquia positiva apenas, estamos conscientes da importância da produção do conhecimento de que o espiritismo precisa para progredir consoante suas bases e não correr o risco da estagnação, que leva qualquer doutrina à derrocada.



Acha que a forma digital tende a diminuir a modalidade impressa?

Parece que o espaço virtual que a rede mundial da internet oferece é o próprio futuro em ação, se apresentando aos indivíduos. Penso que estaremos nos surpreendendo sempre e cada vez mais com as possibilidades aí presentes. Mas é também perceptível que aquele mundo do pensamento em que os espíritos fora do corpo físico habitam tem tudo a ver com o mundo virtual e, conseqüentemente, com o saber espírita da atualidade.

Nesse sentido, é possível acreditar que a materialidade tende cada vez mais a ser substituída por suportes outros, como é o caso do livro virtual. Inimaginável pouco tempo atrás um indivíduo ter à mão, em qualquer lugar e hora, uma biblioteca com centenas de milhares de livros, como é o que oferece os iPads, a nova coqueluche das classes mais abastadas. Esses pequenos aparelhos oferecem condições de leitura, consulta, pesquisa, anotações, além de inserir o portador na rede e por ela se comunicar.

Continuaremos românticos e saudosistas, porque nos faz bem e nos dá momentos de felicidade ao atender os desejos localizados em nossa psique, mas não poderemos fugir das novas realidades, cada vez menos concretas e ao mesmo tempo mais reais.



Qual a perspectiva de expansão do movimento espírita a nível internacional?

Continuaremos tendo grandes dificuldades com isso, mas o esforço que os brasileiros estão fazendo nesse sentido é louvável e deve ser apoiado. O fato de o Brasil estar sendo visto com maior atenção no campo político e econômico é favorável, porque atrai a atenção para sua diversidade cultural e o espiritismo encontra-se muito bem localizado aí, apesar da matemática estatística do IBGE não ser tão estimuladora.

Os instrumentos midiáticos também vêm ao encontro dos interesses espíritas, especialmente a rede virtual, contribuindo para alargar os horizontes mundiais. Acredita que também aí a tendência é obter mais sucesso na disseminação dos princípios do que na institucionalização, repetindo em escala internacional o que já ocorre no Brasil. Mas o caminho é mais longo e mais espinhoso.


Algo mais que queira acrescentar

Um grande abraço e parabéns por este excelente espaço público que você mantém.








LEGENDA DAS FOTOS: Wilson Garcia e os filhos Adriano Garcia e Débora Garcia ; Wilson Garcia, seus irmãos Maria Helena Garcia e Valdir Garcia, esposa Tânia Tourinho e filha Clara Garcia; WILSON EM SEU ESCRITÓRIO; Equipe do programa radiofônico Realidade Paralela, Rádio Folha de Pernambuco: Valda Leal, Elias Nascimento, um convidado, Rhaldney dos Santos e Wilson Garcia (coordenador); NA CONEAN EM BIRIGUI, SP, NO ANO DE 1999; NO XII CONGRESSO ESTADUAL DE ESPIRITISMO, EM CAMPINAS, NO ANO DE 2003, EXPONDO O TEMA “A divulgação do Espiritismo, a política e as demais crenças”. (FOTOS WILSON GARCIA. AS DUAS ULTIMAS ISMAEL GOBBO)

OBS: AS FOTOS DO ACERVO PARTICULAR DE WILSON GARCIA SÓ PODERÃO SER UTILIZADAS EM OUTRAS PUBLICAÇÕES MEDIANTE AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DO MESMO.

2 comentários:

Henrique disse...

Meu caro irmão Wilson Garcia.Um dia,eu o levei de carro junto com a irmã Araçi Rodrigues Carpati,do centro espirita de Eldorado,divia de Diadema.Atrávez do irmão querido Eduardo Carvalho Monteiro,frequentei o Sanatório de Pirapitingui,por longos anos.E nesta reunião fratérna em um domingo pela manhã,o Eduardo estava presente,quantas saudades meu querido irmão Wilson.Um abraço e fique na paz do Senhor.

Angela Bozoni disse...

Wilson, conheci sua obra através de uma aluna sua, Bety de Eldorado do Lar Anália Franco, ela quando fala de você seus olhos brilham, hoje ela tem um lar espírita Irmã Celeste, no qual eu participo. Adorei o modo que você coloca o espiritismo, clara e objetiva. Parabéns pelo seu lindo trabalho. Venha nos visitar. Grande abraço.